Isidório não é 'folclórico' e 'pitoresco', mas sabe usar bem a fama


Isidório não é 'folclórico' e 'pitoresco', mas sabe usar bem a fama

Foto: Marcelo Camargo / Agência Brasil

No primeiro dia da atual legislatura na Câmara dos Deputados foi possível ter certeza que o Pastor Sargento Isidório decidiu expandir, sem qualquer ressalva, a fama de “pitoresco” que o acompanhou durante os quatro mandatos como deputado estadual da Bahia. Dentro de um Congresso Nacional que remete a um circo de horrores, o pastor que se diz ex-gay consegue chamar atenção de desavisados, que acham o “inusitado” atrativo. Foi assim com o primeiro projeto de lei protocolado este ano: transformar a Bíblia em patrimônio imaterial do Brasil. Com essa matéria, Isidório ganhou holofotes da imprensa nacional.

Era exatamente o que ele planejava. O pastor-sargento que se apresenta como “doido” não é meramente um personagem, como por muito tempo se fez acreditar. Ele é fruto do momento político vivenciado no país e soube se aproveitar bem da fama que o transformou no campeão de votos em 2018 – e ainda puxou o filho, até então João Isidório, como deputado estadual mais votado. De representante de policiais militares, quando esteve entre os líderes da greve de 2001, até chegar no pleito de outubro último, o criador da Fundação Doutor Jesus não deu “ponto sem nó”. E o apetite dele não deve parar por aí.

A estratégia em torno do “Pastor Isidório” incluiu até a mudança do nome do filho na Assembleia. Já no Legislativo, João se transformou em “Pastor Isidório Filho”. A remissão ao pai, após a eleição, reforça que os passos do clã são bem definidos. E foi o herdeiro quem deu a dica para a explicação do fenômeno eleitoral de ambos. Durante a posse, João agradeceu à imprensa por ter feito o pai dele ser conhecido e ter permitido que o trabalho desenvolvido por ele se expandisse. Sim, a Fundação Doutor Jesus, que já fora eivada de críticas, hoje é uma das principais instituições na recuperação de dependentes químicos a receber recursos estatais na Bahia. Uma bola de neve que se retroalimenta e provoca arrepios para quem conhece um pouco mais sobre os pensamentos que permeiam a cabeça do patriarca.

Em 2016, Isidório tentou ser prefeito de Salvador, com o apoio do governador Rui Costa. Numa campanha com favoritismo do candidato à reeleição, ACM Neto (DEM), o deputado estadual conseguiu exposição para o tom “folclórico” com que até então se apresentava. Teve mais da metade de votos da candidata oficial de Rui Costa, Alice Portugal (PCdoB). Desde então, fala-se numa reedição da candidatura na capital baiana em 2020 ou a migração para São Francisco do Conde ou Candeias – esta última, sede da fundação que recebe cifras milionárias para fazer um trabalho social importante, admitamos.

Caso consiga permanecer em evidência, por mais que seja com projetos como a proibição do uso da palavra “Bíblia” em contexto diferente do cristão ou até mesmo a reedição nacional do “Dia do Heterossexual”, Isidório tem tudo para ser mais do que o personagem pintado como “peculiar” pelas letras da imprensa. Assim nasceu um outro fenômeno das urnas que atualmente é presidente da República, Jair Bolsonaro (PSL). O parlamentar baiano pode não ser ambicioso ao ponto de tentar o Planalto. Porém não se engane se o nome dele aparecer como competitivo nas próximas eleições em Salvador ou na Bahia, surfando na onda do conservadorismo e do modelo apolítico com que o país tem convivido.

Este texto integra o comentário desta segunda-feira (18) para a RBN Digital, veiculado às 7h e às 12h30, e para as rádios Excelsior, Irecê Líder FM, Clube FM e RB FM.

por Fernando Duarte/BN

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